A barbárie de culpar a vítima pelo estupro precisa ter fim

A sentença das bancárias para todo e qualquer homem que não respeita e não entende que a mulher é a vítima: “o estuprador és tu”. Leia manifestações de bancárias indignadas com a cultura do estupro

Imagine que você, homem, seja uma mulher que resolveu participar de uma festa com a roupa que quisesse usar, se comportar como quisesse e deixasse essa mesa festa estuprado. Impossível imaginar, não é? Claro, você não é mulher.

Afinal, você pode (e tem o direito) de ir vestido como quiser em uma festa. Pode, inclusive, estar disposto a tomar um grande trago e combinar com os amigos seu retorno para casa são e salvo. Você não vai ser estuprado. Você pode muito bem é ser o estuprador.

Quando as mulheres feministas dizem que “Não é não”, elas não dizem isso para que você possa tirar sarro de uma frase simples e óbvia. É porque você não entende isso.

E o exemplo mais bem acabado do machismo estrutural se reproduziu nesta semana em um tribunal de exceção para a influencer Mariana Ferrer. Ela foi estuprada em 2018, durante uma festa, em Santa Catarina, pelo empresário André de Camargo Aranha.

Ele foi absolvido da acusação por promotores, delegados, juiz, todos coniventes com seu crime. Mariana é que foi condenada como a autora voluntária de seu próprio estupro por causa de seu comportamento.

O site The Intercept Brasil publicou esta matéria com um vídeo de trecho do julgamento do réu. Mariana foi humilhada pela Justiça que deveria protegê-la.

Além de alcançar os trend topics das redes sociais, o assunto rendeu protestos presenciais por todo o país. Na quarta-feira, 4/11, um grupo de mulheres e ativistas políticos e sociais se reuniu em frente ao Tribunal de Justiça do Estado em Porto Alegre para cobrar punição a mais um estuprador absolvido.

Porque o home não sabe o que é ser mulher. E, conforme as falas das dirigentes bancários – mulheres que atuam em defesa das trabalhadoras e são também ativistas feministas – absolver um estuprador é algo corriqueiro no Brasil. E nunca esqueça, homem: “o estuprador és tu”.

#JustiçaPorMarianaFerrer

Leia e assista aqui a reportagem do site The Intercept Brasil sobre o caso da influencer Mariana Ferrer.

“Infelizmente, a maioria das acusações de estupro acaba desse jeito”

É um grande soco na cara de todas as mulheres brasileiras. Na verdade, isso ganhou notoriedade mas quem milita no movimento de mulheres já sabe como funciona isso. Infelizmente, a maioria das acusações de estupro acaba desse jeito. Não dá em condenação para o estuprador. É um dos fatores que dificulta a própria denúncia. As mulheres não querem passar por todo esse processo de fazer uma denúncia, que é um processo tão doloroso e tão difícil, para depois chegar lá na frente e elas ainda saírem como culpadas. É a vida da mulher que é exposta. É a vida da mulher que é mexida. E o estuprador sai ileso sem acontecer nada, sem nenhum tipo de punição. E a mulher fica com medo e com todo o prejuízo da denúncia.

(Bia Garbelini, diretora de e Gênero do SindBancários e empregada do Banco do Brasil)

“Nós, mulheres, sempre somos subjugadas pela nossa subjetividade

Além de ser revoltante, o que mais me deixou chocada e estarrecida foi a tese do estuporo culposo. Porque traz à tona a questão da misoginia de uma forma muito cruel que trata a mulher como a causadora de uma violência tão profunda. O desrespeito durante a audiência do em relação a ela, alegando que ela estava dissimulando um choro, foi de uma forma hedionda. Porque, nós mulheres, sempre somos subjugadas pela nossa subjetividade, pela nossa forma de reagira. As lágrimas daquela moça que foi condenada por uma bancada de homens opressores e que defendem a cultura do estupro declaradamente. Isso para mim ficou muito nítido nesse veredito. A defesa dizer que, se tivesse um filho ia dizer que não se relacionasse com ela, é de uma crueldade, mas de uma crueldade naturalizada pela falta de respeito às mulheres.

(Ísis Marques, Secretária de Combate ao racismo da CUT-RS e bancária do Itaú)

“O estuprador, por ser rico, influente acabou sendo protegido pela justiça”

O que a justiça fez com o caso da Mariana Ferrer foi inaceitável e tornou mais horrendo e desrespeitoso o crime ela sofreu. A justiça que deveria acolher, ouvir e minimizar a injustiça feita a ela acabou fazendo o contrário. Nós, mulheres, somos todas Mariana Ferrer. Não só por sermos solidárias a ela, mas também por sabermos que poderemos sofrer o mesmo e o homem ficar impune. O estuprador, por ser rico, influente acabou sendo protegido pela justiça e a moça que sofreu estupro, só foi humilhada pelos homens que estavam na audiência. Por tudo isso não existe estupro culposo! O estuprador és tu!

(Virginia de Faria, diretora de Formação do SindBancários e bancária da Caixa)

Fonte: Imprensa SindBancários

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