Saúde pública é quem mais combate o coronavírus

Exemplos de atendimentos de doentes de COVID-19 em hospitais que ainda não foram privatizados se espalham em tempos de entrega de patrimônio público

Quando a água bate na linha da cintura e continua subindo, é hora de tomar providências imediatas. É o caso da pandemia do coronavírus. E a principal providência a ser tomada nesta hora é apelar para quem pode resolver – e geralmente quem pode e resolve são as boas e velhas estruturas estatais, que não têm compromisso com a lucratividade e podem prestar um serviço mais amplo e acessível.

O insuspeito primeiro-ministro britânico Boris Johnson, um ultraconservador convicto, privatista, está entre os que foram salvos pelo serviço público ao ser contaminado pelo coronavírus. E, assim como no Brasil o SUS atende a todo mundo, lá o político inglês tratou de procurar ajuda no similar sistema de saúde britânico, o NHS.

Após uma semana de risco grave, internação e tratamento, ele teve alta, já fora de perigo. Emocionado, agradeceu muito aos médicos, enfermeiros e a outros funcionário do Hospital St. Thomas, um hospital público de Londres. “Nunca agradecerei o suficiente”, disse Boris, de 55 anos, que elogiou em especial o carinho e o atendimento prestados a ele por um enfermeiro português e uma enfermeira neozelandesa, ambos imigrantes trabalhando no sistema público inglês.

Ironia da História

“É interessante lembrar que, na hora do risco, o neoliberal Boris Johnson não teve muitas dúvidas e apelou para o SUS deles”, aponta o presidente do SindBancários. “Lá, como aqui, a direita privatista quer fragilizar e acabar com todos os serviços públicos e estatais, mas quando o bicho pega, muitas vezes é para as estruturas estatais que os neoliberais apelam, seja na saúde, seja nas empresas e nos bancos públicos”, pontuou Everton Gimenis.

O líder sindical lembra, ainda, que a campanha eleitoral vitoriosa de Johnson foi baseada na defesa do Brexit – ou seja, no desligamento da Grã-Bretanha da União Europeia, e no isolamento econômico e social do país com o resto do continente, com corte de direitos e de garantias dos cidadãos europeus.

“Então eu acho que este caso do Boris Johnson é uma ironia da História. Afinal, um privatista procurar exatamente um hospital de saúde pública para escapar da morte, e depois ainda se sentir no dever de elogiar publicamente dois trabalhadores estrangeiros imigrantes, que a sua política neoliberal e isolacionista preferia ver bem distantes, dá o que pensar”, concluiu o presidente do SindBancários.

No exemplo britânico, o primeiro-ministro terminou revisando seus preconceitos em relação ao estado e seus serviços. No Brasil, ao contrário, a população segue correndo grande risco – confusa com as mensagens contraditórias que vêm de Brasília.

Mensagens contraditórias

Enquanto o ministro da Saúde, o médico Luis Henrique Mandetta, bem ou mal procura orientar a população a tomar todos os cuidados, ficar em quarentena ou isolamento social, usar máscaras, luvas e se possível realizar seu trabalho em casa – o presidente da República sinaliza para uma direção totalmente contrária.

Acreditando em sua própria fantasia, Jair Messias Bolsonaro vem trazendo pânico aos infectologistas, à segurança e à saúde pública, a cada vez que sai do Palácio para encontrar o povo. Sem usar máscara de proteção ou luvas, abraça e dá a mão para todos, junto a vendedores de churrasquinho na rua ou em portas de açougues e padarias. No último giro na periferia de Brasília, o presidente limpou a coriza do nariz na manga do casaco e nas costas da mão e, em ato contínuo, cumprimentou, com a mesmíssima mão, uma apoiadora que gritava seu nome.

Quando concede uma entrevista à imprensa sobre o assunto, tenta sempre minimizar a gravidade da pandemia do Covid-19 e critica veladamente a quarentena e o isolamento, recomendados por autoridades da saúde do mundo inteiro. Assim, na semana passada, a queda do ministro Mandetta chegou a ser considerada certa. Em vista das pesquisas que mostravam apoio ao ministro, o “Mito” resolveu adiar este desfecho, mas nunca se sabe qual vai ser seu próximo tiro no pé.

Fim do “Mais Médicos”

Não que Luiz Henrique Mandetta seja o maior exemplo de apoio a uma medicina para todos, ou mostre-se menos mercantilista. Impossível esquecer que em dezembro passado ele lançou o programa governamental “Médicos pelo Brasil”, em substituição ao “Mais Médicos”, criado com sucesso em 2013. Após várias ofensas e ataques de Mandetta e de Bolsonaro aos profissionais cubanos que trabalhavam no projeto, desde 2018, Cuba havia se retirado oficialmente do programa. Até hoje, localidades distantes no interior do Brasil amargam a falta de profissionais da saúde, com o vazio criado pela ausência do “Mais médicos”.

Mandeta também é um conhecido defensor do fim do SUS gratuito. E também, desde que foi deputado pelo DEM, do Mato Grosso, é identificado como um conservador de direita muito próximo dos planos de saúde privados. Mais recentemente, durante a pandemia, andou liberando a compra de insumos de empresas implicadas em denúncias de corrupção e desvios com dinheiro público.

Por essas e outras, enquanto o número de mortos e infectados cresce constantemente no país, e o Congresso Nacional discute um “orçamento de guerra” para enfrentar o momento nacional, o presidente da República parece viver num país à parte, talvez fora do planeta.

EUA: recorde de casos

Talvez desejasse viver no mesmo mundo até recentemente defendido por seu ídolo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. É que nos States, ao contrário do Brasil e da própria Inglaterra, o lobby médico/hospitalar/laboratorial sempre impediu qualquer programa amplo de saúde pública. Trump também desmontou a tentativa de seu antecessor, o democrata Barak Obama, de ampliar o Medicare, um plano de saúde público para todos os trabalhadores estadunidenses.

O resultado é a perda de controle da COVID-19. Assim, desde o último final de semana, os EUA são o país com o maior número de óbitos causados pela doença. Até esta terça-feira, 14/04, foram computados mais de 23,6 mil mortes e 582,5 mil casos, em contagem da Universidade Johns Hopkins. Os mortos se contam as centenas, principalmente em Nova York, o epicentro da pandemia no mundo. Nos EUA, os mortos, especialmente os da periferia, já são enterrados em covas coletivas.

Gripezinha

Em tempo: aos primeiros sinais da doença, como seu discípulo brasileiro faria depois, Donald Trump comparou a COVID-19 a uma simples “gripe” e disse que a epidemia acabaria com a chegada do “calor”. Ambos os líderes passaram a ideia de que seus países tinham tudo sob controle. A realidade se encarregou de desmenti-los tragicamente.

No Brasil de Bolsonaro, somente agora cogita-se de aumentar em 20% o número de leitos de UTI do SUS, necessário ao atendimento dos infectados. O país tem 14,8 mil leitos de UTIs adultos. Na correria, enquanto o Brasil conta os novos mortos, o governo abriu licitação para contratar 2.000 novos leitos, abaixo dos 2.960 que seriam necessários. O cálculo também desconsidera o total de leitos da rede hospitalar privada, porque segundo o Ministério observa – com naturalidade – ela “não pode ser acessada pela maioria da população”.

Ritmo de campanha

Ao que tudo indica, ao presidente brasileiro não importa muito quantos brasileiros e brasileiras morrerão com o surto de COVID-19. O que importa é que o país mantenha algum crescimento. Afinal, Bolsonaro já dá sinais de estar em campanha para a reeleição em 2022. E com seu jeito grosseiro e sarcástico (até quando procura ser engraçado), tenta reforçar a identificação que construiu com grande parte do eleitorado brasileiro, em especial com as parcelas menos informadas da população.

Privatizações em alta

Enquanto tosse e espirra sobre os apoiadores em delírio, com a outra mão, no gabinete, o presidente articula a privatização de setores brasileiros, como o de energia elétrica. A imprensa anuncia que, ainda neste ano, estão na mira privatista ao menos seis grandes estatais do setor. A CEEE aqui do RS, a CEB (DF), a Celesc (SC), a Cemig (MG) e a Eletrobrás. Juntas, elas acendem a luz do economia e do desenvolvimento em 17,1% do mercado nacional.

Tudo tem aspectos macros e micros. Mas já pensou se faltar luz na hora do atendimento de urgência, porque o hospital da comunidade não conseguiu pagar a conta da privatização?

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