“Não há políticas de contratação e ascensão para as mulheres negras”, diz Isis Marques

Bancária, conselheira da Fetrafi-RS e secretária de Combate ao Racismo da CUT-RS fala sobre racismo estrutural e institucional

Antes do noticiário mundial ser invadido pelo coronavírus, a Fetrafi-RS vinha publicando matérias sobre os desafios das mulheres contra a discriminação de gênero e as violências pelas quais elas são acometidas: física, sexual, psicológica, moral, patrimonial etc. Com a pandemia, neste momento, muitas mulheres ainda estão cumprindo dupla e tripla jornada, fora ou dentro de casa, em regime de teletrabalho. E muitas, também, estão sofrendo violências de seus companheiros e familiares enquanto se isolam do mundo.

Por isso, seguimos com a série e nesta matéria, abordamos a realidade da mulher negra, a partir da experiência da ssecretária de Combate ao Racismo da CUT-RS, a bancária Isis Garcia Marques.

As disparidades por cor ou raça

Mulheres negras ganham salários menores que as mulheres não-negras, como mostram os dados do IBGE. De 2012 até 2018, a diferença entre as mulheres cresceu, de 66% para 71%. Segundo informações do Dieese, em 2019, a taxa de desocupação das mulheres negras era de 16,7% e das não-negras era de 11%, enquanto que a média salarial por hora trabalhada em cargos que precisam de formação superior era de R$ 24 para as negras e de R$ 35 para as não-negras.

Quando se fala de violência contra a mulheres, os dados são ainda mais contrastantes. Segundo o Atlas da Violência 2019, as negras são as vítimas mais recorrentes de homicídio: de 2007 a 2017, a taxa de assassinatos desse grupo cresceu 29,9%, enquanto que das não-negras cresceu 4,5% no mesmo período.

Todas essas informações são bem conhecidas pela conselheira fiscal da Fetrafi-RS e secretária de Combate ao Racismo da CUT-RS, Isis Garcia Marques, que não tem ilusões sobre o fim do racismo em pouco tempo. “Me cansa ver os gráficos, porque há dez anos que ouço a mesma coisa. Não mudou nada, pois não há comprometimento das empresas, não há uma política de contratação de negras, que permita que essas pessoas ascendam e sem tirar delas a sua identidade, sem pedir que cortem ou alisem seus black powers”, diz a combativa dirigente sindical.

“A minha função é trazer a discussão do comprometimento da sociedade da qual eu faço parte e para a qual pago os meus impostos com a mesma alíquota, mesmo recebendo 60% menos que um homem não-negro. No momento que eu ganho menos e que tenho os mesmos tributos, meu salário não vai ser o mesmo que de uma mulher não negra. Essa é uma maneira de não ascender”, completa.

Racismo estrutural

Isis explica que para entender o racismo e, principalmente, o racismo contra a mulher negra é preciso entender como se construíram as estruturas no mundo do trabalho. “Elas são convergentes com a estrutura da sociedade. A sociedade enxerga a população negra como a base de uma pirâmide. Então, quando a gente percebe que o ponto de partida não é o mesmo para o restante da pirâmide, a gente enxerga o motivo da desigualdade”, começa.

“O capitalismo se retroalimenta das desigualdades, mas antes de existir um sistema social, já existiam pessoas que faziam parte de um sistema, desde 1.500. Tudo estrategicamente construído para que a população negra nem estivesse nos espaços, foram criadas várias leis que nos impediram de ir além. Conforme foram se passando os séculos, foram se construindo mecanismos de invisibilidade, já que a violência, que foi a primeira estratégia, não funcionou”, explica a conselheira da Fetrafi-RS. “E como se invisibiliza a população negra? Não nos vendo, não nos ouvindo e nos estereotipando”, completa.

A solidão da mulher negra

Na literatura internacional, muito se fala da “solidão da mulher negra”. Isso, segundo Isis, também é histórico e data do período da escravidão. “Nós não fomos preparadas para ter uma família. Na senzala, a gente não tinha marido nem filhos porque eram retirados de nós para serem vendidos, porque éramos peças. Essa coisificação trouxe o desmembramento familiar”, revela.

E a violência do período da escravidão permanece nos dias de hoje, mas de outras formas. “Enquanto mulher negra tenho minhas medidas de precaução. Por exemplo: quando vou para uma atividade, um ato, não fico na linha de frente porque sei que vou ser a primeira a apanhar, que vai ser arrastada pela Brigada Militar”, constata.

Falta de oportunidades

No ramo bancário, do qual Isis faz parte, é raro ver uma mulher negra na área comercial, no contato direto com o público. Para ela, esse é mais um reflexo do racismo estruturante e institucional. “A vida inteira tive que me adequar àquele modelo que nunca me representou, eu nunca fui o perfil de uma mulher bancária. Sempre tentaram me seduzir para ir para a área comercial, mas eu sabia que esta era um trampolim para me demitir. Quando queriam demitir as pessoas, mandavam para a área comercial sem ter o conhecimento e o perfil”, conta.

O preconceito se manifestou desde o início da carreira, segundo ela. “Quando fui para o banco há 27 anos atrás e tinha apenas 6 meses de agência, minha gestora me chamou para me convencer de que eu não era negra, que eu era “morena”. Ela queria tirar minha identidade. Depois fiquei sabendo que ela não queria ter negros no setor dela”, conta.

Para ajudar a mudar essa realidade, Isis trabalha para dar visibilidade a negras e negros e cobrar seu espaço na sociedade, independentemente do ramo de atuação profissional. “Estou em um dos meus momentos mais felizes, por assumir a secretaria de combate ao racismo. E eu faço o meu trabalho onde eu sei que sou útil, não disputo com ninguém. Na CUT pude ter a dimensão de quem eu sou como dirigente sindical. A questão é a classe trabalhadora e não um ramo somente, pois a mulher negra tem dificuldade de ascender em todas as áreas”, conclui.

Fonte: Contraf/CUT

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