O texto ‘Um ônibus cortando o Guaíba’, do escritor Alcy Cheuiche, foi destaque na edição do jornal Zero Hora de sábado, dia 26. O artigo trata da travessia entre Porto Alegre e a cidade que leva o mesmo nome do estuário Guaíba, além das possibilidades turístico/históricas que esse trajeto oferece.
Um grupo de escritores, alunos da oficina literária ‘Entre o Sena e o Guaíba’, promovida pela Associação do Pessoal da Caixa Econômica Federal do RS (Apcef), fizeram o passeio. A oficina de criação literária, com parceria do SindBancários, produzirá um livro bilíngue, em português e francês. Entre as suas atividades previstas para estimular a criatividade, está programada uma viagem a Paris, quando o grupo realizará a travessia semelhante pelo rio Sena.
Oficina Literária no SindBancários
Alcy Cheuiche é o responsável pelas Oficinas de Criação Literária do SindBancários, que neste ano chega a sua 4ª edição com o tema ‘O movimento da Legalidade’. Com um número máximo de 15 alunos, as aulas têm início previsto para 15 de março e acontecem às terças, das 18h às 21h, na Casa dos Bancários. O investimento é de R$ 270 para bancários sindicalizados e R$ 540 para o público em geral, parceláveis em nove meses.
As inscrições podem ser feitas na Secretaria-Geral, com Vanessa, pelo telefone 3433-1202. As oficinas do Alcy Cheuiche produziram 21 obras em nove anos. “Mais que formar escritores, as oficinas têm a intenção de melhorar a capacidade de comunicação das pessoas, tanto escrita quanto oral”, observa Cheuiche. A parceria com o SindBancários resultou nos romances históricos 'Banco não dá bom dia', recuperando a história do Sindicato; Nos caminhos do Banrisul, sobre os 82 anos do banco, e o livro de contos, Ditadura, Anistia e Greve Geral - 30 anos depois, que reconta episódios que aconteceram no campo sindical e político em 1979.
Texto publicado na ZH
UM ÔNIBUS CORTANDO AS ÁGUAS DO GUAÍBA
É isso mesmo. Não é metáfora, nem licença poética, nem força de expressão. Estou dentro de um ônibus cortando as águas do Guaíba. Um belo ônibus fluvial para cento e vinte passageiros, que acaba de deixar o cais junto ao terminal do Trensurb. Diante de nós as águas se encrespam ao vento sudeste. Rapidamente, o catamarã atinge sua velocidade de cruzeiro: 50 quilômetros por hora. Pouco para uma estrada, muito para uma navegada sem sinaleiras fechadas, sem carros, motos, ônibus, caminhões e carroças para ultrapassar. No interior do barco, através das paredes envidraçadas, vejo desfilar a bombordo o perfil da minha cidade. Bombordo, o lado esquerdo, o lado do coração.
Porto Alegre é uma cidade linda. Mais linda quando vista ao entardecer, refletindo em milhares de vidraças o pôr-do-sol alaranjado e rosa. O ônibus fluvial avança em direção à cidade de Guaíba. Ali nasceu a Revolução Farroupilha, em 1835, e morreu Bento Gonçalves, em 1847, na casa de seus velhos amigos Gomes Jardim e Isabel Leonor. A casa do cipreste histórico é um ponto cultural e turístico que os porto-alegrenses e nossos visitantes pouco conhecem. Mas que irão conhecer, em futuro próximo, com muito mais facilidade, quando este ônibus fluvial estiver operando regularmente.
O sonhador que o mandou construir e o apresenta com orgulho, é o empresário Hugo Fleck. Os viajantes, seus convidados, são todos escritores, meus alunos da oficina de criação literária que redigem um livro de contos bilíngue português/francês. O livro pretende apresentar Porto Alegre aos parisienses e Paris aos porto-alegrenses. O projeto se chama “Entre o Sena e o Guaíba”, exatamente porque as duas cidades são filhas de seus dois rios. Com a diferença que o Sena, desde a antiguidade, nunca deixou de ser navegado pelos mais diferentes tipos de embarcações. E nós abandonamos o Guaíba, há meio século, em troca de uma ponte levadiça que hoje costuma ficar trancada lá no alto, contemplando milhares de veículos engarrafados e infelizes.
O ônibus fluvial chega agora diante do cais da cidade de Guaíba. Levamos exatamente vinte minutos nessa travessia. Mas não vamos desembarcar. Porque a obra no trapiche para embarque e desembarque de passageiros ainda não está pronta. E não depende da empresa proprietária do ônibus fluvial e sim das autoridades locais. Pode levar mais um mês, dois meses, três meses... É ter paciência e dar volta para Porto Alegre, onde chegaremos em mais vinte minutos de uma bela navegada. Que custará, no futuro, a cada passageiro apenas o preço de seis reais.
Na volta, olhando para o lindo prédio do Museu Iberê Camargo, penso no futuro e acredito no sonho que estamos vivendo. Um dia, como em Paris, os ônibus fluviais de Porto Alegre nos levarão regularmente por toda a orla do Guaíba. E sua denominação indígena de “encontro das águas”, voltará a ser verdadeira para todos nós.
Fonte: Imprensa SindBancários com ZH
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