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Ator e diretor falam sobre Elvis & Madona. Filme segue no CineBancários PDF Imprimir E-mail
Seg, 26 de Setembro de 2011 20:21



Uma travesti e uma lésbica se apaixonam e vivem uma história apaixonante. Improvável? Pois foi de uma história real – um pai que, depois de virar travesti, se apaixona pela namorada do filho – que o diretor Marcelo Laffitte se baseou e fez Elvis & Madona, filme que teve lançamento no dia 22, no CineBancários. Após a sessão, em uma sala lotada, Laffitte e o ator Igor Cotrim, que interpreta a travesti Madona, conversaram com o público.

.: Veja o convite do ator Igor Cotrim

Elvis & Madona, premiado em inúmeros festivais de diversos países, conta a história de um improvável casal formado por uma travesti, Madona (Igor Cotrim), e uma fotógrafa lésbica que trabalha como entregadora de pizza, Elvis (Simone Spoladore). Com um leve tom de comédia é, acima de tudo, um filme sobre o amor.

Marcelo, em bate-papo com a redação do SindBancários, contou sobre como o filme surgiu no papel e a odisséia que durou quase 20 anos até a produção ir parar nas telas. Também deu detalhes da busca pelo casal perfeito. “Eu não precisava de um ator que fizesse bem uma travesti ou uma lésbica, estava atrás de uma química. É algo que brota quando você se apaixona por uma mulher ou um homem e não importa se a mulher é feia, baixa ou gorda”, explicou.

Também expôs que alguns bordões que aparecem no filme, como a frase “é tudo a porra do dinheiro”, não estavam no roteiro e surgiram das dificuldades que a equipe enfrentou durante as filmagens. Igor, de atuação destacada pela crítica, revelou que um dos elogios que mais se orgulha recebeu da própria vó. “Minha família estava assistindo o filme pela primeira vez. Minha vó, depois de meia hora, perguntou onde eu estava. Daí, avisaram que eu era a travesti”, disse.   

O filme fica em cartaz no CineBancários até o dia 9 de outubro, em três sessões diárias, às 15h, 17h e 19h. Ingressos a R$ 5 para público geral e R$ 2,50 para idosos, estudantes, bancários e jornalistas sindicalizados e funcionários do GHC.

Confira alguns trechos da entrevista:

O começo

Marcelo Laffitte – O processo foi muito solitário, difícil. Tive minha equipe, a tropa de Laffitte, como eles mesmos brincam. Mas antes de gravar, fiquei dois anos pensando e conversando sobre o filme com alguns amigos. Primeiro, veio a ideia de fazer uma história de amor, que depois foi ganhando, naturalmente, um tom de comédia. Mas sempre tive muito cuidado, porque é muito complexo e delicado fazer piada com a vida das travestis. Mas sempre lembrava da “Vida é Bela”, que brincou com a questão do holocausto e é um filme que gosto muito.

Um belo dia, soube de um concurso do Minc que ia fechar dali há dois meses. Já estava indo em empresas, por causa do incentivo fiscal, mas era tudo muito desorganizado. Nos bancos, por exemplo, você levava o projeto, que era remetido para o presidente. Se ele achava legal, investiam. Mas o tema, a história do filme deixava esse processo mais complicado, ainda mais há 10 anos. No terceiro edital que entramos, o filme foi aprovado. Então, saíram R$ 2 milhões em 2006 e em 2007 fomos filmar. Já sabíamos que o dinheiro não ia ser suficiente.

É tudo a porra do dinheiro

Igor Cotrim – Paramos várias vezes, uma vez sete meses. Tanto que a frase “é tudo a porra do dinheiro” surgiu durante as filmagens.

Macelo – É verdade. Quem ler o roteiro não vai encontrar essa frase. Tem várias que surgiram durante a gravação, como “o espetáculo é de baixo orçamento, mas não de baixo nível”. O filme é autoreferente nessas partes.

O recomeço

Faltavam três dias para terminar de filmar e acabou o dinheiro. Ficamos parados por sete meses. Foi uma fase muito difícil, principalmente para os atores. Particularmente para o Igor, que era o personagem mais “montado” do elenco. Conseguimos terminar as filmagens depois de fazer uma “vaquinha”. Mesmo assim, faltou dinheiro para finalizar. Editamos em casa, naquele “quartinho de empregada”. Mas não tinha dinheiro para mixagem, edição de som, de cor, que requer equipamentos mais caros. Conseguimos a partir de um segundo edital, no finalzinho de 2008.

A escolha dos atores

Marcelo – O que eu precisava não era um ator que fizesse bem uma travesti ou uma lésbica, estava atrás de uma química. Não sei explicar bem, mas é algo que brota quando você se apaixona por uma mulher ou um homem e não importa se a mulher é feia, baixa ou gorda. Você se apaixonou e não tem explicação. Fiz teste com excelentes atores, excelentes atrizes, que foram muito bem individualmente. Mas quando juntei o Igor e a Simone, foi perfeito. Saiu faísca.

Sessões comentadas em Porto Alegre no Close e no Festival de Verão

Igor- A recepção do público foi muito legal. Teve três senhoras, que deviam ter uns 70 anos, que viram o filme e disseram “Nossa! Vamos divulgar para todo mundo aqui no Rio Grande”. O Marcelo sempre conta de um paraibano que chega para ele diz “to nem aí se é uma travesti ou uma lésbica, depois de dez minutos o que eu vejo é uma história de amor”.

Fomos para vários lugares diferentes, como Varsóvia, Austrália, Nova York, Los Angeles, Miami, Argentina... Percebemos que, apesar do filme ter uma temática gay, o Marcelo realmente conseguiu imprimir uma história de amor crível. O elenco inteiro é muito bom e o Marcelo fez um ótimo trabalho de atores. Mas a viga mestre de tudo é um relacionamento nada usual. E transformar esse relacionamento em algo crível, que não seja caricato, é muito complicado.

Madona

Marcelo - Teve muita jornalista que me perguntou onde eu arranjei aquela travesti, inclusive de jornais grandes.

Igor – Uma dos melhores elogios que eu tive foi no Mix Brasil. Minha família estava assistindo o filme pela primeira vez. Minha vó, depois de meia hora, perguntou onde eu estava. Daí, avisaram que eu era a travesti.

Filme popular ou alternativo?

Marcelo – Procurei um grande distribuidor. Ele viu o filme e disse que o filme era muito bom, mas que gostava de filmes mais comerciais e o meu era muito autoral. Pediu pra procurar fulano de tal, que é especializado em filme de arte.

Esse distribuidor me respondeu que meu filme era muito bom, mas era muito popular e ele não sabia trabalhar com esse tipo de filme. Então tá. Fiz um filme que não é nem uma coisa, nem outra. Acho que Elvis & Madona, na verdade, é o tipo de filme médio, pra fazer 400, 500 mil ingressos.

Dificuldades na distribuição

Marcelo – Infelizmente, a distribuição brasileira não acompanhou os avanços da produção, que hoje faz tudo que é tipo de filme, de estética, desde blockbusters até os mais experimentais, das universidades, dos recém formados.

As salas de cinema também estão crescendo muito, principalmente as para um público de baixa renda, que não tínhamos antes. A outra ponta da atividade também está se desenvolvendo. Você tem a oferta de filme e tem local de exibição. O que está faltando é a distribuição, que infelizmente não acompanhou o ritmo.

Faltam avanços na cultura

Marcelo – Tudo avançou nesse país nos últimos oito anos. Saúde, economia, a Dilma foi aplaudidíssima na ONU. Mas a cultura continua concentradora de renda, elitista. Não mudou nada. O teatro continua caro e o público sem ter acesso.

Em 2005, escrevi um artigo sobre a lei do curta metragem. Infelizmente, a ABD&C (Associação Brasileira de Documentaristas e Curta Metragistas, entidade que Marcelo presidiu) colocou para baixo do tapete, vergonhosamente. A lei obriga as salas a exibirem curtas metragens antes dos filmes. Isso passa pela soberania do país. Você ter domínio do seu espaço, nem que for de dez, doze minutos em uma tela de cinema.

O YouTube é a favelização do cinema. Hollywood quer que a gente fique com a internet e dizem para nós “olha esse espaço, você pode fazer o que quiser com ele, até ganhar dinheiro. Mas a sala de cinema, essa deixa pra gente”. E eles ocuparam as nossas salas. Nossos filmes são da Columbia, Warner, Sony, Paramount...

Novos projetos

Marcelo – Tenho dois projetos em pauta. Um deles é Salomé. Ela é uma grande estrela, que sai em capa de Piauí, vai no Jô soares. Os filmes dela tem milhões de expectadores. Só que ela é uma atriz de filme pornô. O pai dela morre e ela precisa voltar para sua cidadezinha. Todo mundo acompanha a vida dela nas revistas, mas ninguém fala com ela, porque é uma atriz pornô. É um pequeno ensaio sobre a moralidade.

O outro projeto que pode dar samba ou rock n’ roll é o Elvis & Madona 2.

Fonte: Imprensa/SindBancários
Foto: Pedro Braga

Última atualização em Ter, 27 de Setembro de 2011 13:04
 

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