Na manhã desta sexta-feira, dia 25, delegados sindicais, dirigentes de todo o estado e alunos do curso EAD sobre Saúde do Trabalhador participaram de uma aula especial, ministrada pelo professor José Henrique de Faria.
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Pesquisador do CNPq, o professor também coordena o Programa de Mestrado Interdisciplinar em Organizações e Desenvolvimento da FAE - PR Centro Universitário Franciscano do Paraná.
A abertura da atividade que marcou a retomada da programação do Diálogos para Ação, contou com a participação dos diretores de Saúde da Fetrafi-RS, Amaro Silva de Souza, de Formação do SindBancários, Ronaldo Zeni e da assessora de Saúde, Jacéia Netz.
A assessora destacou os módulos já ministrados do curso EAD promovido através de convênio com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O curso de extensão sobre vigilância em saúde do trabalhador bancário, com ênfase na questão da violência do trabalho, iniciou em novembro de 2010.
Os participantes do curso, com carga horária de 140h, serão certificados pela UFRGS. O diretor Amaro Souza, salientou que a saúde do trabalhador continua sendo um dos temas prioritários para o movimento sindical. “Estamos desenvolvendo a campanha Tudo Tem Limite há quase dois anos e já percorremos algumas regionais da Fetrafi-RS, onde foram realizadas atividades de lançamento do projeto.
Nesta quarta e quinta estivemos em Pelotas, onde também ficou evidente que bancários não suportam mais a maneira como são tratados pelos bancos”, observou o dirigente.
Dissimulações discursivas sobre a violência no trabalho O professor José Henrique de Faria estuda o tema Relações de Trabalho desde 1978. “Desde o início me dediquei a estudar o trabalho na indústria, principalmente na indústria automobilística. Tive a oportunidade de conhecer aquela forma de produção chamada de fordista e ver o sofrimento que causava aos trabalhadores”.
Faria explica, que este modelo de produção foi aos poucos sendo substituído pelo chamado Toiotismo, que determinou formas diferentes de organização do trabalho, mas igualmente prejudiciais aos trabalhadores.
Ele também relatou as mudanças que ocorreram no sindicalismo dos EUA, que levaram os sindicatos, sob o argumento de preservar empregos, a estabelecerem acordos com as indústrias que criaram duas categorias de trabalhadores, novos e antigos, na mesma função, mas com pisos diferenciados.
Segundo o pesquisador, com o avanço das formas mais sofisticadas de gestão, a prática da violência no trabalho foi sendo escondida. “Há duas formas de violência no trabalho. A primeira delas é a violência explícita, que é praticada pelos gestores de maneira direta e objetiva. Já a segunda é a subjetiva, que se manifesta de maneira implícita, indireta e subjetiva”.
O professor também aponta que as empresas têm investido nas universidades para obter estudos, visando o aprimoramento e sustentação de seus modos de gestão. “Há uma necessidade, que foi criada pela evolução do processo de gestão, que é a da comunicação.
Isto ocorre porque é preciso que a empresa coloque o que é inaceitável para os trabalhadores, através de uma linguagem tolerável. Usam o discurso para motivar o trabalhador enquanto a situação é totalmente falsa.
O objetivo é explorar até a última gota. Toda empresa estabelece uma relação platônica com o empregado, onde só o trabalhador ama. O sentimento da empresa em relação ao trabalhador é de utilidade prática”.
Faria diz que muitas tecnologias facilitam a vida, mas no caso dos bancários e de outras categorias, isto implica no avanço da expropriação do sujeito do seu trabalho. “A sociedade não encontra um equilíbrio diante disso porque a lógica do capital é o lucro.
Hoje existe no Brasil a febre do empreendedor, do tipo de trabalhador que sobrevive por conta própria. Temos os cursos que nos formam como técnicos e não como cidadãos, como se pudéssemos deixar de lado todos os problemas pessoais, inclusive os do trabalho. De alguma forma é o que as empresas estão fazendo com a nossa vida e a escola também nos prepara pra isso. Cada vez temos menos espaços críticos dentro da universidade, por exemplo”.
Sobre a violência
Para o professor, a violência da "não-violência" é a violência do discurso. “São os discursos ideológicos que dissimulam a realidade.
A violência institucionalizada no trabalho é o ponto mais alto da irracionalidade social, produto da ilegitimidade, da injustiça, do desrespeito ao direito e à dignidade das pessoas”. Faria afirma que o trabalho precisa ser um lugar do prazer. “Quando eu não consigo ter prazer no trabalho, não há condições de uma vida saudável”.
Tipos de violência no trabalho
“A violência econômica que aparece sobre as formas de remuneração, a definição da jornada, é a que nós mais sentimos. Já a violência política vai aparecer através da utilização indiscriminada do sistema de punição e recompensa. Prêmios de produtividade são formas de recompensa, são também formas de agressão ao outro, que não consegue atingir as metas”, observa o pesquisador.
Para o professor, a violência psicossocial é a mais violenta e a menos percebida. “Divisão do trabalho, controle de horário, adestramento, cobranças por atitudes ou comportamentos padronizados são orientações de métodos de executar as tarefas com maior rendimento.
Se alguém faz bem uma tarefa, a organização se apropria daquele padrão e implanta pra todo mundo com a ajuda de consultorias, sem considerar as diferenças individuais”.
O sofrimento psíquico
O pesquisador explica que a partir da pressão pelo cumprimento de metas, que não são possíveis de se alcançar, os trabalhadores estabelecem compromissos psicológicos. “Quando o trabalhador não atinge as metas ele sofre com isso. A vítima do processo passa a ser o algoz de si mesma.
Na vida universitária isso está muito presente nos programas de mestrado e doutorado. Quanto mais produz, mais você tem que produzir. Então o que está acontecendo? Nós estamos escrevendo muita bobagem”.
Dissimulações
O professor enfatiza que a violência no trabalho se utiliza de dissimulações discursivas, para se perpetuar. “São formas usadas pela organização e seus representantes para ocultar e disfarçar suas verdadeiras práticas.
A violência no trabalho é retratada com outros termos, transformando suas formas em questões genéricas”. Discurso x violência implícita: Atingir metas = pressão para Definição de metas = inatingíveis Dedicação = excesso de trabalho Comprometimento = longas jornadas de trabalho Eficiência gerencial = gestão autoritária Orientação aberta = humilhação e desmoralização pública Relações Interpessoais = assédio moral Oportunidades de promoção = assédio sexual Valorização do bom empregado = discriminação e preconceito Técnicas de motivação = ameaças de demissão Natureza do trabalho = exposição a danos físicos e psicológicos Legislação ultrapassada = desrespeito às leis trabalhistas Gestão por objetivos = sofrimento psíquico Desajuste social do trabalhador = transtorno psicológico Reflexos da injustiça social = ambiente de risco
Conseqüências
Segundo o pesquisador, os reflexos destas dissimulações discursivas são: Ler/Dort, dependência química (álcool, drogas, fármacos com receitas); adoecimento psicológico, adoecimento físico (úlceras, problemas cardíacos, tumores e linfomas).
Faria diz que estabelecer formas de luta para mudar as condições de trabalho, acabando com as formas de violência que levam ao adoecimento é um dever que de todos. “Ter consciência crítica é fundamental. Além disso, cabe salientar que a melhoria só se dá para o plano coletivo. Por isso, a luta é coletiva”.
Veja a apresentação
Fonte:Fetrafi-RS / Fotos: Cristiano Estrela
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