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Sessão de pré-estreia de Diário de uma Busca atrai grande público. Leia entrevista com a diretora PDF Imprimir E-mail
Qua, 03 de Agosto de 2011 16:13



A pré-estreia nacional do filme Diário de uma Busca lotou o CineBancários nesta terça, dia 2. A sessão, seguida por debate com a diretora do filme, Flávia Castro, o deputado estadual Raul Pont e Flávio Koutzii, foi prestigiada por um grande público. O filme segue em cartaz na sala até o dia 21 de agosto, em três sessões diárias: às 15h, 17h e 19h. Ingressos a R$ 5 para o público em geral e R$ 2,50 para idosos, estudantes, bancários e jornalistas sindicalizados e funcionários do GHC.

Diário de uma Busca tem como ponto de partida a morte do pai da diretora, o militante Celso Afonso Gay de Castro, encontrado baleado dentro de um apartamento. O documentário mostra Flávia na busca por respostas sobre o que aconteceu: os laudos da polícia são contraditórios e afirmam que o pai se suicidou motivado por um assalto que não deu certo.

Mas, como define Flávia, o resultado de Diário de uma Busca não é um filme “sobre morte”. “Logo que eu iniciei os trabalhos no roteiro, comecei a me interessar pela trajetória dele e vi que não fazia sentido falar na morte sem primeiro contar como foi a vida do pai”, explica a diretora. Flávia também refaz a trajetória de Celso no exílio, durante o regime militar, e percorre diversos países e cidades brasileiras. “Quero dividir, compartilhar o pai que eu conheci”, afirma Flávia.

O resultado é um filme extremamente pessoal, premiado nos Festival de Gramado, Rio, Biarritz e Punta Del Este. “É uma honra estar oportunizando a pré-estreia do filme no país”, garante o presidente do SindBancários, Juberlei Bacelo, antes do debate começar. “O Sindicato estava empenhando em trazer o documentário para o CineBancários desde que foi exibido pela primeira vez. Essa também é a nossa homenagem ao dia 7 de agosto, Dia do Documentário, gênero que sempre tem espaço aqui na sala”, ressalta.

Flávia também se diz prestigiada por estreiar o filme em um espaço que foi e continua importantíssimo para a história de luta do Brasil. “É muito bom saber que o filme esteja passando em lugar onde meu pai talvez estaria hoje”, observa.



Antes da sessão, Flávia conversou com a redação do CineBancários. A diretora falou sobre o filme, as dificuldades para produzi-lo e revela se encontrou o que estava buscando. Leia a entrevista abaixo:

SindBancários – Como surgiu a ideia de transformar a busca pelo aconteceu com Celso em um filme?

Flávia Castro – Surgiu em 2000, conversando com o Joca, meu irmão. Falávamos muito da morte do pai. Queríamos entender melhor as circunstâncias do que aconteceu. Mas o que imaginávamos era muito longe do filme que se tornou o Diário. Era sobre a questão da morte. Logo que eu iniciei os trabalhos com o roteiro comecei a me interessar pela trajetória dele e vi que não fazia sentido falar na morte sem primeiro pensar e contar como foi a vida do pai.

S – O Celso, em alguns momentos da infância, esteve longe de ti. Fazer o filme também foi uma forma de conhecer ele melhor?

FC – Não.  Engraçado me perguntar isso, porque há um tempo alguém fez esse comentário e eu nunca havia pensado nisso. Acho que tínhamos uma proximidade tão grande que eu não via nossa relação dessa forma. De fato, teve períodos longos que não nos víamos, como quando ele foi morar na Venezuela. Mas, internamente, eu me sentia muito próxima dele. No filme, quero dividir, compartilhar o pai que eu conheci. Queria encontrar coisas sobre a morte e contar coisas que eu conhecia sobre a vida.

S – Percebe-se que o Joca (irmão de Flávia) tem um papel muito importante no filme. Está presente em praticamente todas as entrevistas com a família e sempre é citado quando tu lembra da infância. Em alguns trechos, Joca questiona qual o papel dele no filme, já que esse não seria o filme que ele faria. Como define a participação do Joca em todo o processo?

FC – O Joca foi fundamental. Essas cenas com ele entraram na última etapa da filmagem, não estavam no roteiro. Foi muito difícil integrar a participação dele ao filme. Ao mesmo tempo era fundamental, porque o Joca discute o próprio filme. Ele faz o documentário ser um pouco metafilme. Pra mim era importante inserir o questionamento do irmão, do filho do Celso. No fundo, acho que ele diz o que eu queria dizer. A palavra final é do Joca, mas compartilhamos a mesma ideia.

S – O filme é abordado por um ponto de vista muito pessoal, da filha falando do pai. Como foi te expor, expor a tua família e as cartas do teu pai?

FC – Foi muito intuitivo, não sabia como seria para minha família. Não foi fácil. As pessoas foram aceitando o que eu estava fazendo à medida que persistia com minha ideia. As tias aderiram logo no começo, acharam super legal. A mãe não dizia, mas eu sentia uma resistência. Minha vó também, questionava porque fazer o filme. Foram anos de luta para filmar, anos para montar, então as pessoas meio que se renderam e aceitaram a ideia.

A questão das cartas foi muito delicada. Eu não tinha todas e não sabia como colocá-las no filme. Ele escrevia muito bem e era uma parte de sua vida que me interessava. Minha vó me deu todas as cartas que ela tinha. E pedi sem ressentimentos, assim: vó, me dá as cartas? E ela deu. Tiveram surpresas, como da Ana, mãe da minha meia-irmã Maria, que mora em Paris e eu não via há anos e quase não tinha contato.

Depois que eu a entrevistei, ela me emprestou todas as cartas que tinha. Lembro que fui pra casa com um bolo de envelopes na mão e não sabia direito o que fazer. Havia uma sensação de pudor em ler cartas de amor que meu pai escreveu para uma mulher que tinha amado. Não sabia se tinha o direito de ler. Lembro que estava sozinha com a câmera em Paris e filmei algumas cartas meio sem ler. Só tive coragem de ler uma e essa já tinha várias questões que me interessavam. No fim acabei lendo outras, mas não todas.

S – Tem um trecho do filme que tu estas aqui em Porto Alegre e liga para o jornalista Jorge Waithers. Ele diz pra ti ter cuidado na tua investigação, que talvez tu estivesse procurando algo que na verdade não existia. Isso aconteceu muitas vezes? Por que a decisão de manter esse comentário?

FC – Mantive porque me chamou a atenção a reação dos jornalistas que cobriram o fato pela Zero Hora. Eu tinha todos os jornais e eles me serviram de base na investigação. Quando conversava com eles, desdiziam o que tinham dito, o que entendo, o tempo passa e a gente muda de opinião. Outros se recusaram a falar. Eu decidi manter os trechos para mostrar como foi difícil minha busca.

S – Um dos pontos mais tensos do filme é quando o delegado Mafra é entrevistado. Como foi esse encontro? Ele sabia que era filha do Celso?

FC – Foi um episódio muito duro. Essa é uma parte do filme que não aguento ver. Preparei muito as perguntas. Até podia ter dito quem era no final da entrevista, mas não queria fazer nenhuma grande revelação. Tentei extrair o máximo que podia dele.

S – Como é lançar teu filme em um cinema que funciona dentro de um sindicato, que assim como teu pai lutou contra a ditadura?

FC – É muito bom saber que o filme esteja passando em lugar onde meu pai talvez estaria hoje, é um universo que é muito mais dele do que meu. Nunca militei, mas me sinto muito acolhida aqui e acho muito importante que o documentário, mesmo não sendo um filme político, possa dialogar com esse espaço, que foi e é importantíssimo para a história de luta do Brasil.

S – Em algumas entrevistas que deu no ano passado, tu fala que sobrou muito material do Diário, e que gostaria de utilizar esse material para outros documentários. Segue com essa ideia?

FC – Eu estou terminando de escrever um longa de ficção no momento. Mas gostaria de fazer outro filme sobre o Celso. Tenho um material muito rico, mas falta dinheiro. É só montar, mas preciso ter um financiamento para parar com tudo na minha vida e me dedicar só para isso por três meses. Quando eu conseguir, eu faço.

S – Encontrou o que estava buscando?

FC – O que estava mesmo buscando, acho que não. Encontrei outras coisas. Outras buscas começaram com o filme e encontrei outras respostas. Se não encontrei a resposta que provocou o filme, encontrei outras.

Fonte: Imprensa/SindBancários
Fotos: Cristiano Estrela

Última atualização em Qua, 03 de Agosto de 2011 16:56
 

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