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Seminário 82 anos SindBancários: instruções para romper cercos no sistema da comunicação Seminário de Comunicação do SindBancários Full view

Seminário 82 anos SindBancários: instruções para romper cercos no sistema da comunicação

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Não é fácil praticar a democratização das comunicações no Brasil. Ainda mais porque apenas mencionar este tema oferece riscos de se cair num mar de complexidade capaz de diluir as verdadeiras intenções de quem defende o contraditório nas programações das mídias de grande audiência e quem chama equivocadamente essa proposta ou luta de censura. Até porque o assunto é complexo por envolver mudanças na legislação, uma capacidade de luta sem trégua, contra um sistema muito bem assentado, e que tem em suas mãos os instrumentos tecnológicos de mediação. Mais do que assentado, fazemos parte de um modelo sistêmico que nos diz como se deve comunicar e ficamos mudos.

Pensar em comunicação exige que pensemos em tecnologias da informação. Então, pode parecer discurso vazio ou coisa de gente que está descontente com tudo. Não é. O Seminário 82 anos do SindBancários – Democratizar a comunicação: a mídia que nós queremos, na manhã desta terça-feira, 20/1, no auditório da Casa dos Bancários, mostrou que precisamos romper cercos em várias indústrias com ramificações mundiais. Além de enfrentar o alto grau de agendamento de assuntos da mídia tradicional, precisamos enfrentar e romper monopólios sobre tecnologias, combater a natureza narcisista das redes sociais e fortalecer a importância de um mediador social ameaçado por discursos que conformam seu fim, o jornalista.

O seminário teve dois painelistas. O presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)  Celso Augusto Scrhöder, e o comunicador Arthur William, do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC). Os dois painéis, respectivamente, A comunicação que o Brasil precisa e Novas formas de comunicação e Democratização fizeram um diagnóstico geral das condições e oportunidades para se estabelecer novos marcos regulatórios para a comunicação no Brasil e incluir a complexidade que a tecnologização da mediação propõe. A conclusão é que o sistema está doente, agonizante.

Ter meios de comunicação democráticos é, na opinião de Schröder, o caminho para que a diversidade cultural da população esteja representada na mídia. Ele lembra que este movimento surgiu ainda antes do processo de redemocratização do país. Carece de diretrizes que norteiem seu trabalho e acesso. “Se a comunicação é pública, ela não é de ninguém, mas de todos”, provoca, ao lembrar que não cabe apenas a grupos formados pelas empresas, governo e jornalistas realizar o debate sobre o melhor modelo de gestão da comunicação. “A sociedade precisa compreender como se dá o processo de comunicação e o porquê da desconstrução da lógica de construção da notícia.”

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William, que trabalha com a formação de comunicadores de movimentos sociais e sindicais, acredita que estes atores sociais enfrentam atualmente o desafio de dialogar com a nova categoria que está entrando para as bases, que tem acesso a uma infraestrutura de comunicação e distribuição que foge aos meios tradicionais. “O modelo de comunicação unidirecional é defasado para os dias de hoje, que é muito mais próximo da comunicação em rede”, destaca, citando como exemplos a mídia tradicional e os protestos de junho de 2013, onde não havia um único detentor da informação nem a concentração em uma única liderança. “É preciso conhecer o público para saber como fazer a comunicação voltada para ele”.

William deu como exemplo de iniciativa para aproximar a categoria a estratégia de comunicação que o SindBancários passa a implementar com o lançamento de seu novo site e de um aplicativo para celulares na noite da terça-feira, 20/1, por ocasião da confraternização pelo aniversário de 82 anos do SindBancários. “Temos alguns tipos de redes. Uma rede produtora que distribui para a sua audiência, o modelo que temos hoje na Rede Globo, por exemplo, concentrado e unilateral. E também temos uma rede descentralizada com alguns pontos de acesso. A rede em que todos falam com todos precisa ser a nossa utopia. É uma rede sem líderes. O SindBancários tem sido um exemplo de aproximação com a categoria”, diz William.

Contra os cercos

Mas como se viabiliza essa tão necessária democratização da comunicação? Primeiro, falemos sobre história. O modelo mais recente legado para a nossa geração está esculpido em apenas cinco artigos na Constituição de 1988. Garante liberdades de informação, mas não tem regulação. Daí, todo o discurso da mídia corporativo quando se debate ou se defende a necessidade de ampliar a participação do contraditório no sistemão. As sete famílias que dominam revistas, jornais, televisões no país discursam  que é censura o que se propõe. Quer dizer, jogam todo o peso da força de massificação que possuem para descaracterizar e tirar a legitimação de uma necessidade. A saber, jogam contra as suas próprias sobrevivências.

Nada disso. Nada de censura. A palavra é controle. A proposta de democratização constitui-se como a defesa de um direito humano, como uma garantia de que esse direito não seja moldado pela visão de agendamento hegemônico que essas famílias têm. Nem apenas podem ficar sob os olhos de agências reguladoras. É preciso controle direto da população. Por exemplo, em países como a França e Reino Unido, ilustra Schröder, qualquer deslize, qualquer opinião expressa em uma grande rede de TV e que atente contra a algum grupo humano, como racismo e xenofobia, pode ser advertida. E o autor da opinião nem precisa ser jornalista.

No Brasil, a imprensa é livre até para defender e se comportar como partido político sem deixar isso claro. Por isso debate leva em consideração a participação da mídia no Golpe Militar de 1964 e o papel de partido que vem desempenhando desde então. O contexto é de uma direita pálida, sem discurso, a não ser um antipetismo e a incorporação oportunisticamente de pautas da esquerda, como o caso do assassinato insano de chargistas e jornalistas do jornal francês Charlie Hbedo, por terroristas muçulmanos.

Das disfunções e das pressões

Mas também é tempo de cobrar de partidos progressistas um maior protagonismo na democratização da comunicação. “O debate da democratização da comunicação não começou com o PT. Ele é feito há mais 30 anos. Aliás, temos que pressionar a presidenta Dilma que tome a frente neste processo que faça essa reforma. Temos que fazer a luta no governo também não só no parlamento”, sugere Schröder.

Segundo o presidente da FENAJ, a Ditadura Militar legou-nos duas disfunções básicas no que se refere à organização do sistema de comunicação. A mídia se organizou de forma centralizada, em que a eficiência corporativa é produzida a partir da TV com a distribuição de conteúdos centrada no eixo Rio-São Paulo e difundida para as afiliadas – relação Rede Globo-GrupoRBS –  e um modelo verticalizado e concentrado de negócio.

Mas Schröder vê neste movimento que conduz a uma naturalização de uma liberdade de imprensa inexistente, mesmo com as redes sociais, sob dois vieses. O primeiro é a oportunidade que se apresenta ao processo de democratização da comunicação em virtude da falência desse modelo de negócio das corporações midiáticas. O outro viés é o limite da liberdade que as redes sociais fornecem. “Nós, movimentos sociais, sindicatos, não podemos cair na lógica da visão liberal. Democratizar a comunicação não significa apenas liberdade para o indivíduo. Significa que temos que disputar espaço de fala. Não podemos excluir do processo a Rede Globo, essas empresas que já tiveram programações progressistas. Temos que fazer a disputa pela formação de uma esfera pública que foi rompida. Podemos fazer isso debatendo, inclusive com as grandes empresas que estão falindo e se deram conta que o modelo de negócio deles, de concentração, está falido também”, acrescenta Schoröder.

Regulação x regulamentação

A diferente concepção acerca dos termos regulação e regulamentação surgiu nas duas falas. Para William, a mídia no Brasil está regulamentada quando, a partir do surgimento de novas tecnologias, os governos buscaram definir parâmetros e concessão dos direitos de produção e distribuição do conteúdo. Schröder, por sua vez, entende que as condições oferecidas não são suficientes para atender as necessidades da população. Afinal, falamos em comunicação como direito de acesso e espaço de disputa discursiva. Portanto, em seu ponto de vista, além da regulamentação econômica da mídia, é preciso também rediscutir o modelo de regulação vigente.

Por certo, trata-se de procurar desbloquear o acesso ao debate público que os movimentos sociais, a população em geral tem direito humano. Esse é o viés da comunicação que queremos. Como fazer? Ora, é preciso desbloquear a concessão de TV que a CUT há muito solicita para dar visibilidade às lutas e às conquistas dos trabalhadores. Trata-se de perceber que, quando falamos em comunicação, precisamos falar também de softwares e hardwares, como bem lembra William, e também de produção cultural, como bem lembra Schröder. Trata-se de luta por um modelo de produção cultural com muito mais participação.

 

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A fala do presidente do SindBancários, Everton Gimenis, e o bloqueio que as sucessivas greves dos bancários sofre na mídia corporativa local dão a dimensão do tamanho da luta que precisamos empreender para romper o cerco. “As grandes empresas de mídia sempre veem a nossa greve como algo que atrapalha os cidadãos. Não enxerga como uma luta legítima de trabalhadores por melhores condições de vida. Na última greve do Banrisul, o colunista Paulo Sant’Anna, da Zero Hora, nos chamou de vagabundos. Fomos para a frente da Zero Hora e fizemos um ato. A renovação da concessão de TV, que é pública, da Globo é feita sem discussão. Tudo bem que não podemos fazer igual a eles. Não tenho problema de escutar o Arnaldo Jabor falando mal da luta dos trabalhadores e as besteiras que fala. Mas temos que garantir o outro lado, o contraditório”, alerta Gimenis.

A tarefa não é fácil. Se sete famílias dominam a comunicação no país, quatro grandes estruturas tomam conta dos serviços de mediação, como as donas de empresas produtoras de celulares e de estrutura física para a comunicação via internet. Google, Facebook, Microsoft, Yahoo têm desde softwares a propriedades de sistemas de transmissão e empresas elétricas. Mas há esperança para saídas, segundo William. Grandes corporações, como as grandes empresas de mídia, controladas por religiosos pentecostais ou empresários com visão liberal de direita e as telefônicas, não podem ouvir falar de sistemas de distribuição em que não é preciso agendar-se com o tempo da programação nem de software livre.

Netflix e Skype soam pessimamente nos ouvidos desses oligopólios. Definitivamente, é tempo de aproveitarmos esta brecha para mudar o rumo dessa conversa sobre democratização das comunicações. Não estamos falando de censurar, mas de mudar. Nem que o tamanho da oportunidade pareça abertura de uma agulha. Outra linha é possível para romper os cercos.

Parceria

Parceria do SindBancários com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SINDJORS), o seminário oportunizou que os presentes, em sua maioria profissionais ligados às duas entidades, questionassem ou sugerissem novos pontos para debate. Além de vários diretores do Sindicato, bancários da base e delegados sindicais, o seminário contou com a mediação do diretor do SindBancários de Formação Júlio Vivian e com a presença do presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS e funcionário do SindBancários, Milton Simas Junior.

Fonte: Imprensa SindBancários, com Bruna Fernanda Suptitz, do Sindjors

Escrito por Clóvis Victoria

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