• Home  /
  • Noticias   / Bancos   /
  • Painel em Porto Alegre analisa influência do WhatsApp e das “fake news” nas eleições 2018

Painel em Porto Alegre analisa influência do WhatsApp e das “fake news” nas eleições 2018

O papel das notícias falsas, conhecidas como “fake news”, disparadas em massa através de redes de WhatsApp na campanha do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), foi tema do debate “WhatsApp e as Fake News nas eleições de 2018”, realizado na noite de quinta-feira, 29/11, no auditório do SindBancários, no centro de Porto Alegre. O evento foi promovido pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, com mediação das jornalistas Eliane Silveira e Kátia Marko.

Notícias falsas começaram a circular pelo aplicativo de troca de mensagens WhatsApp em 2014”, lembrou o pesquisador João Guilherme Santos, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)

Ao lado da professora Maria Helena Weber, a Milena, coordenadora do Observatório de Comunicação Pública da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Santos fez uma análise sobre a influência das mídias sociais no processo eleitoral.

Propagadores não são identificados

Desde 2012 nós já pesquisávamos a mobilização sistemática online de grupos políticos nas redes sociais. Menções ao kit gay, por exemplo, já eram feitas por extremistas através do Twitter desde aquela época. Então, a grande surpresa não é o conteúdo das notícias falsas, mas como as ‘fake news’ viralizaram sem que seus propagadores pudessem ser devidamente identificados”, avaliou Santos, que atualmente conduz um levantamento preliminar sobre o comportamento de mais de 9.800 pessoas em 90 grupos sobre política nas redes.

Conforme o pesquisador, a esquerda brasileira demorou muito tempo para perceber o potencial do aplicativo de mensagens instantâneas de influenciar a esfera pública. Há quatro anos, durante o pleito que reelegeria a presidenta deposta Dilma Rousseff (PT), um factoide afirmando que o doleiro Alberto Yousseff, peça central das investigações da Lava Jato, havia sido envenenado a mando do Partido dos Trabalhadores, ganhou ampla repercussão no WhatsApp sem que a informação falsa pudesse ser desmentida em tempo hábil pelos peritos.

Descaso das autoridades em investigar notícias falsas

Por inércia ou pura falta de interesse das autoridades, o compartilhamento em massa dessa notícia falsa não foi investigado até agora. O episódio foi esquecido e o mesmo mecanismo foi utilizado esse ano, ganhando ainda mais relevância”, enfatizou Santos, que atribui o sucesso da profusão de “fake news” pelo WhatsApp à dificuldade de rastreamento de fontes, devido às diretrizes de privacidade do aplicativo móvel.

O Whatsapp tem criptografia de ponta a ponta, o que garante o anonimato das fontes e encoraja que pessoas divulguem inverdades sem se comprometerem ou sofrerem sanções, uma vez que o risco de serem identificadas cai consideravelmente”, explicou Santos, que entende o aplicativo não como uma rede de pessoas interconectadas, mas de grupos temáticos interligados por indivíduos conectados.

Segundo ele, “cada vez que uma pessoa compartilha uma informação falsa de um grupo para outro, ela ganha mais e mais visibilidade, ao mesmo tempo em que fica mais difícil de se identificar o emissor original daquela mensagem”.

Caminhos preferenciais

Uma notícia falsa tratando de fraudes nas urnas eletrônicas foi compartilhada por mais de 6 mil pessoas em menos de três horas e atingiu 42 dos 90 grupos de Whatsapp analisados por Santos, o que mostra que existem caminhos preferenciais para a viralização de “fake news”.

Para ele, “normalmente eles (os grupos) tem mais alcance em fóruns digitais que já abordam o assunto há mais tempo. Por exemplo, a fraude das urnas eletrônicas é um tópico defendido por Bolsonaro desde 2014, logo nos grupos compostos por seus eleitores, ela tinha maior capacidade de penetração, justamente pela familiaridade dos integrantes com o tema”.

Lula, polarização e interatividade

Em uma breve análise de conjuntura, a professora da UFRGS mostrou o contexto que proporcionou a projeção massiva das “fake news”, uma nova realidade que remove o peso do tempo de televisão e dos recursos do fundo partidário da disputa eleitoral.

A polarização política do país e a prisão de Lula foram os principais fatos dessa eleição. Mas a grande novidade ficou por conta da interatividade, da participação do eleitor na divulgação das peças publicitárias e de campanha dos candidatos”, disse Milena.

Ela relacionou essa interação à falta de critérios para profusão de notícias. Segundo a professora, “as ‘fake news’ foram parte direta da campanha, pois deixaram os candidatos na defensiva o tempo todo. Em vez de discutirem projetos, tinham de desmentir inverdades”.

O eleitor, manipulado ou não, compartilhou conteúdos produzidos pelas equipes de marketing das campanhas, como se fossem dele. Essa apropriação fez toda a diferença porque foi esse processo de fidelização do eleitorado, que fez com que muita gente divulgasse notícias falsas por conveniência, mesmo sabendo que não correspondiam à realidade”, avaliou Milena.

Canal de denúncias para “fake news”

O secretário de Comunicação da CUT-RS, Ademir Wiederkehr, acompanhou o debate e se manifestou destacando a importância do painel para ajudar a compreender a derrota da esquerda e a mudança de paradigmas na política brasileira, especialmente desde o golpe de 2016.

É um debate que precisa ser aprofundado, pois estamos todos procurando entender o que aconteceu nestas eleições. Os partidos sempre brigaram para ter mais espaço na televisão e no rádio e, dessa vez, foi justamente a sigla com o menor tempo que conseguiu ganhar o pleito”, frisou Ademir, que é também um coordenadores do Comitê Gaúcho do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC).

Santos observou que o episódio da facada em Bolsonaro, por exemplo, acabou tendo muito mais tempo de cobertura jornalística nos noticiários, que possuem maior audiência do que os horários de propaganda eleitoral obrigatória.

O dirigente sindical frisou que o WhatsApp foi usado também por várias empresas para coagir empregados a votar no candidato na extrema direita, como nunca ocorreu em eleições anteriores, segundo o Ministério Público do Trabalho. Ele defendeu a criação de um canal de denúncias para investigar as “fake news”, pois a sociedade não pode ficar refém das mentiras.

Oficina de WhatsApp

Para Ademir, “o movimento sindical precisa aprender a se comunicar melhor com os trabalhadores, utilizando também as mídias sociais, sobretudo o Whatsapp”.

Com essa visão, ele aproveitou para informar que a CUT-RS em parceria com o Sul 21 irão promover na próxima segunda-feira (3), uma Oficina de WhatsAPP para comunicadores e dirigentes sindicais, com o ativista digital Lúcio Uberdan, diretor da Bateia Mineração de Dados.

Assista à transmissão ao vivo da Frente Brasil Popular RS!

O Whatsapp e as Fake News nas eleições 2018

Publicado por Frente Brasil Popular RS em Quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Fonte: CUT-RS

Escrito por Clóvis Victoria

Escrever um comentário